O mar.
(nota da editora)
Globo Livros, 18 de mar. de 2014 - 227 páginas
Escrito pelo irlandês John Banville, O
mar, vencedor do Man Booker Prize em 2005, costura memória e ficção de modo
indissociável, investigando as sensações em suas reveladoras minúcias, e em um
inventário infinito que quase prescinde ― como modernamente se prescinde ― do
fio narrativo ele mesmo. Desenvolvido de modo relutante em primeira pessoa
(Banville tentara, antes, a terceira pessoa), a do crítico de arte Max Morden,
que oscila de modo irregular entre passado e presente, infância, idade adulta e
velhice, entrelaçados às visitas a The Cedars, casa de veraneio alugada
por seus pais em Ballyless, local imaginário na Irlanda, nas duas partes em que
vem dividido o romance.
Embora haja idas e vindas temporais, o livro é a
memória do homem já idoso, após perder a esposa Anna: o tempo se distende para
englobar a infância repleta de um fulgor selvagem, o peso emocional e
existencial desconcertante do período da doença da mulher, para encontrar
Morden revisitando The Cedars com a filha Claire, e para registrar o período
final com Mme. Vavasour e seu inquilino, um coronel aposentado, em momentos que
proporcionam não apenas ajustes emocionais entre os personagens, mas memórias
proustianamente disparadas pelos sentidos. Referências à arte perpassam o
livro, ilustrando a percepção do personagem principal, mas há sobretudo a obra
de Pierre Bonnard, a favorita de Morden, aludida em toda parte, criando um
paralelo entre arte e vida mais complexo do que o velho clichê.
Assim, Morden rememora longamente o despertar
erótico na infância, ligado à família Grace, que também frequentava The
Cedars: o pai Carlo, um tipo caracterizado quase como um sátiro (“marido
caprino”, Banville descreve a certa altura), a mãe Connie, voluptuosa e de uma
vulgaridade sensual, os filhos maliciosos e naturais, Chloe, Myles (gêmeos, e o
garoto, mudo), e Rose (como uma babá das crianças), pessoas de classe média
alta a quem o mais pobre Morden chega a se ligar por laços de amizade e amor, e
a quem acompanha nos passeios de família no litoral. Banville constrói e
desenvolve suas cenas com apuro visual em descrições e comparações, claramente
empenhado em tornar visíveis para o leitor suas notáveis paisagens imaginárias,
dotadas de um realismo sensorial que se pode dizer poético, pela concisão
e pela imaginação de seus métodos.
O mar assume papel múltiplo e opera como um
personagem: é tanto o condutor da narrativa líquida e aparentemente informe,
como também é o receptáculo daquelas presenças, e as reúne numa espécie de
momento mágico que se estende da juventude à velhice, quando a agitação da vida
cede a uma solidão de encontro com fantasmas. O mar é ambas as coisas, assim:
solar e terrível na infância, e companheiro outonal da velhice de Max Morden,
fazendo eclodir também um mar de memórias que compõe prazer e tragédia, na
duvidosa exatidão do passado na memória.